"o bem pensar"

por fabiola



quando o dalailama veio ao brasil, disse em um de seus discursos: "cultuem as religiões locais". Quais seriam ?


Escrevi esse texto me lembrando dos amigos que, como eu, estão aprendendo a adotar alguns ensinamentos vindos do oriente, acima de tudo porque eles tem sido muito mais efetivos para nos levar a um estado de felicidade (ou mesmo nos convencer que esse estado existe e que o merecemos) do que nossas "religiões locais" conseguem fazê-lo.

A despeito disso, eu acredito que temos nossas próprias "explicações cósmicas" e que, embora pareçam estar reduzidas a desenho animado, são fortes, complexas, influenciando nosso cotidiano a todo momento, dirigindo nossas considerações sobre as coisas além de estarem muito mais próximas de nós do que qualquer outro manual de mundo. Não lhes dar atenção é permitir, ou escolher, que desapareçam.

Entendo também, que por todas essas qualidades que acabei de descrever, os méritos das compreensões de mundo nascidas no "ocidente" são entre nós, deliberadamente, bloqueadas por apropriações indevidas expressas em diversos tipos de moralismo. Isso na verdade é universal: uma amiga japonesa me disse que no japão seus contemporâneos tem a mesma relação de rejeição com o budismo que grande parte da nossa sociedade, na qual eu me incluo, tem tido com o cristianismo. Ambos foram reduzidos a um estado simplório pela "moral" para justificar diferentes modalidades de controle.

"Einstein, influenciado por Spinoza que, por sua vez, foi influenciado por Platão que, por sua vez, foi influenciado por Pitágoras, para quem "tudo é matemática", queria obter uma descrição geométrica do mundo, que ele atribuía à uma inteligência abstrata". Hoje a expressão "inteligência abstrata" é utilizada pelos "criacionistas", termo que por sua vez se originou em roda de cientistas e foi adotado pelas igrejas presbiterianas do EUA, para denovo justificar, reconfirmar e dar um hype na idéia de deus. Um círculo, que leva de volta ao paragrafo anterior.

Como consequência dessa obcessao matematica, encontra-se desde as igualmente letais guerras de numeros ou armas até o "reencontro" proporcionado pela internet e descrito por Pierre Levy como o início do fim da grande diáspora que começou na Africa, quando o ser humano se espalhou pelo globo inteiro. Nessa espalhada, distanciou-se demais de tudo e acabou inventando o "outro" tornando-se, na sequencia, inimigo de si mesmo. Nesse combate bizzaro a culpa é a arma.

Pra escapar dessa pressão, encontramos em algumas das escrituras orientais o valor do não pensamento: deixar a mente quieta como a face de um lago em um dia sem vento. Nesse espelho, pode-se ver com fidelidade o reflexo do "eu" "verdadeiro". Qualquer tipo de pensamento, até mesmo a idéia de se estar pensando, pode ser tomado como uma "perturbação mental" . Uma onda no lago que desfigura o "eu" e espessa o véu da ilusão.


Em certos aspectos, a busca de índios a indianos, têm igualmente fracassado na idéia de uma harmonia coletiva.


Então "penso", ainda levando-se em consideração essa macroreferência que chamamos "ocidente" : e se for justamente O "pensamento" a nossa melhor contribuição ao "não pensamento" para o alcance do equilíbrio no "mundo"? E se for a "construção" do EU o melhor que temos a oferecer para o entendimento dos significados do "eu sou" e da compreensão do que eu "não sou" (já que isso parece se confundir comigo e em mim desde sempre). De longe a sabedoria oriental me parece íntegra como a "linha" definida pela palavra sutra, mas sobre os "nossos" próprios valores espirituais existe uma casca tão grossa que só podemos acessa-la por "lampejos" descontínuos . Eis um momento desse, na idéia de "bem pensar" do filósofo spinozza :

"A morte não nega a vida; e as tempestades nada provam contra a navegação. Deixemos a infelicidade em seu estado de coisa. A atrocidade não é cotidiana; o pensamento, sim. Ou, se a atrocidade é cotidiana no mundo, não o é em minha vida. Não há nisso nem glória nem vergonha: não sou sempre eu quem sofre; sou sempre eu que devo pensar. Trabalhemos, pois, em bem pensar ..."

O esforço de "meditar" traz por si só, `a superfície da mente e da imaginação, tantas vezes tantos eventos carregados de culpa que da para imaginar facilmente como monges "controladores" podem manipular pessoas que não têm a oportunidade de atravessar o estágio inicial de concentração, assim como padres e pastores "controladores" o fazem com quem não discerne tranquilidade financeira de tranquilidade espiritual. Não é diferente. Como também, por outro lado, é semelhante o ambiente que a meditação nos situa com o mundo poeticamente "descoberto" e descrito pela fisica ocidental (com ajuda de físicos indianos produzindo conhecimento dentro das universidades americanas)

Uma coisa é fato: no atual momento humano, onde a idéia de nacionalidade é forte, existe guerra. E isso é verdade nos dois lados do planeta. E o contrário dessa disposição é de uma simplicidade absurda, também apreciada "la" e "aqui": "é preciso dizer no futuro o que só se pode viver no presente. Aqui. Agora. Para que um dia - hoje, quem sabe -, sem esperanças, sem pesares, a vida nos seja doce, leve, luminosa e bela, como um sonho de criança feliz perdida na plenitude do céu" (spinozza denovo:)!