A tecnologia gráfica que permite essa fusão é o “morphing”, desenvolvida a partir de uma técnica de video mais antiga, o crossfade, nos anos 90. A palavra derivada de metamorphosis e descrita no dicionário thesaurus da apple como transformação suave de uma imagem em outra (you see her face morphing into the creature's face) é, ao mesmo tempo, uma técnica de animação 3D que possibilita a evolução suave da forma de um objeto para outra forma de um outro objeto.
Plugins para Photoshop e ainda “free” morph softwares , são encontrados na net e você pode baixá-los para morfar suas próprias imagens. Aliás, não exatamente “morfar” de acordo com o português corrente , pois embora o termo seja conhecido em alguns fórums, chats e blogs brasileiros sobre computação gráfica, ainda não se encontra nos dicionários “oficiais” do país nem na wikipédia do idioma.
Abrindo um parêntese para a wikipédia, a ferramenta tem revelado interessantes fenômenos relativos `a nova era da construção coletiva de conteúdos. Uma das discussõs é sobre qual “português” deveria ser usado em suas páginas: lusófolos defendem o idioma como escrito em Portugal, argumentando ser essa a origem da língua. Contudo, organicamente, o português que corre na enciclopédia é o “brasileiro” em função de serem daqui a maior parte dos usuários “editores”. Ainda como curiosidade, em Portugal, como me informa um amigo de Lisboa - e não um dicionário - morfar é uma gíria, que significa “comer”.
Eventos assim, além da profusão de novas expressões de idioma que estamos vivendo, indicam um momento em que a sociedade promove, em si, alterações radicais que levam a transformações significativas e rápidas dentro de seu próprio cotidiano. A crescente e já tão grande quantidade de informações que temos agora disponíveis “gratuitamente” fazem desse momento em que estamos vivendo um instante bastante especial na história. Aquele em que as cortinas “caem” e temos denovo a chance de um upgrade , pois torna-se mais fácil enxergar o que são e onde estão as forças involuídas.
Devemos isso não só `a facilidade de circulação de imagens, mensagens e dados, pela internet, mas também ao fato de existirem milhares de “eggmans” espalhados nos youtubes despejando todos os dias novas versões de conteúdo sobre o mundo conhecido. Só pra termos um parâmentro dessa difusão, ‘Women in Art” foi visto, até hoje, 7.691.958 vezes, só no endereço original de Jonhson no youtube.
Tais eventos, abrem ao senso comum, novos campos de conhecimento e possibilidades de compreenssão de coisas aparentemente (e curricularmente) já “compreendidas”. Assim é com a histórica história da pintura, oferecida hoje em salas de aula numa sucessão cronológica que demonstra, pelo menos no ocidente, uma espécie de pêndulo psicológico coletivo. As imagens oscilam entre o domínio da razão (período associado `a luz, certeza e simetria, ou seja `a matemática e ao pensamento humano) e o domínio das emoções humanas que acusam o limite do pensamento para a condução do próprio destino (momento de respeito aos mistérios, respeito e mesmo temor pela natureza)
Ironicamente, não creio que o melhor da tecnologia morph seja auxiliar a “ver” nas telas algo que antes dessa possibilidade de animação acontecer já não fosse visto. Pelo contrário, o movimento das imagens alude a outras coisas, reforçando, em mim, a tese de que pintura é melhor vista estática, com iluminação favorável e com o mínimo de interferencia visual do ambiente. Por outro lado, se a sequência coubert/ monet/ cézzane/ Picasso/ Pollock/ Warhol/ laborg fosse “morfada”, poderíamos assistir, em vídeo, a história ilustrada da passagem da física moderna`a física contemporânea.
A tecnologia de áudio e vídeo, uma vez apropriada por artistas, imprimiu sobre a artesania da obra o mesmo caráter de ultrapassado que a lâmpada sobre a lamparina.
As mudanças ja vêm acontecendo nos últimos 2 séculos num movimento conhecido como revolução industrial, e um dos seus primeiros impactos sobre a sociedade foi desqualificar todas as atividades artesanais. A pintura, que é um dos veículos mais sensíveis que nos informam sobre as espantosas revoluções que aconteceram a partir do entre-guerras europeu, por exemplo, com o tempo também sofreu as consequências sobre o seu lado material. Praticamente tornou-se luz na década de 60. Acredito que isso não tenha ameaçado a pintura de morte, mas o ofício do pintor quase. Quase e denovo, porque imagino que com a chegada da fotografia muita gente deve ter saido decretando o fim da pintura, ainda no século 19.
Voltando ao vídeo, o que achei mais interessante foram as variações do “olhar” das mulheres que também podem ser percebidas em outros trabalhos de eggman como “women in film”, dessa vez com retratos de atrizes de Hollywood, ou “vangogh” onde se pode ver uma sucessão de auto retratos do artista.
Levando-se em conta, dentro do campo da aprendizagem, apenas o aspecto “sinestésico”, você poderá ter uma experiência de visão perspectiva que raras aulas de história da arte, que se utilizam de imagens estáticas, conseguem alcançar. Mantendo o olhar atento e a mente relaxada, assista algumas vezes sabendo que o foco dessa experiência dependerá de seu próprio foco. No meu caso, o assunto anterior era Reich e eu entrei no vídeo buscando por sexualidade.
Encontrei, no correr das imagens, olhares que iam de frágeis (realmente) e frágeis (nem tanto), românticos (realmente) e românticos (nem tanto). Dissimulação (((amor))) passividade. Cada época parece ter um olhar feminino correspondente a um ponto de interrogação ou afirmação masculinos.
Me arrisco a dizer que praticamente todas as linguagens artísticas urbanas nascem e são inicialmente exploradas por homens: do artesanato medieval, passando pela pintura renacentista e chegando até o modernismo. No rock, grafite, música eletrônica, VJim, assim como no cinema, existe uma predominância masculina incontestável.
O mesmo se repete na indústria do entretenimento, como nos deixa ver uma matéria na folha de São Paulo de hoje, 7 de maio, com o título “existe mulher de verdade no cinema?”: “ em 2007, apenas três dos 20 filmes de maior audiência nos EUA tinham tema feminino: um deles envolvia uma princesa ("Encantada"), e dois outros, histórias de gravidez ("Ligeiramente Grávidos" e "Juno")
Uma rápida aferição dos últimos resultados de projetos e salões de arte no Brasil como Rumos da Itau Cultural e o Salão da Bahia, somados aos convidados para a próxima Bienal de São Paulo, mostra a presença de aproximadamente 50% a mais de homens que de mulheres. Enfim, isso não é diferente de tantas outras atividades humanas dedicadas a regular a expressão e o pensamento de todos e acho que aprofundar aqui nessa direção será chover no molhado.
Até porque se pensarmos em energias masculinas e femininas nos termos de Yin yang, ou seja, forças que se equilibram, não é bem a quantidade de indivíduos que contam, mas sobretudo as condições de liberação e troca dessa energia serem favoráveis.
Devemos admitir cada vez mais a diferença entre homens e mulheres, não para reafirmar a desigualdade, mas para celebrá-la, para que essa relação se dê de forma a harmonizar o mundo, e não o contrário.
O sentimento ápice do desiquilíbrio, por nós conhecido como “machismo”, é uma cadeia que aprisiona não somente mulheres, mas também os homens. Exercer, na sociedade, o papel de “macho” raramente é uma opção. Da mesma forma, essa “filosofia” não se sustentaria sem a colaboração nossa. Ou seja, por tras da relação social entre homens e mulheres, existe um sistema de valores que nos modela.
Sobre esse “sistema”, merece atenção o ponto de vista defendido, entre outros, por Fritjof Capra, de que mulher e natureza foram igualmente subjugadas e são igualmente passivas diante do homem. Que esta questão estaria nas origens da violência que testemunhamos hoje. E que as forças sensatas da atualidade reinvidicam não uma substituição de um pelo outro na condução geral das coisas, mas um revezamento pacífico.
Nesse contexto, penso que o maior mérito das mulheres artistas é o mesmo mérito dos homens artistas: investigar e construir poeticamente uma realidade humana única que transcenda, inclusive, a imposição mais inquestionável na natureza que é a sua divisão entre o masculino e o feminino.
Fabíola Morais é graduada em arquitetura e urbanismo, pintora, desenhista, videoartista, pesquisadora e professora nas áreas de design, história da arte e desenho expressivo. Mestre em Gestão do Patrimônio Cultural fez especialização anterior em Cultura, Memória e Linguagem pela Universidade Católica de Goiás.